sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Cama de Hospital - Parte I (CONTO)



Como se já não bastasse viver isolada do mundo, não a vinham visitar. Estava precisando conversar com alguém. Mas seus olhos ficavam vidrados na porta, esperando que algum conhecido fosse vê-la e ficasse por um bom tempo conversando com ela, sem ter hora para ir embora. Alguém que não precisasse ficar olhando no relógio com pressa de ir e que não a deixasse lá sozinha novamente. 
Estava no hospital há três meses e ainda não recebera nenhuma visita de algum conhecido, pois não sabiam de seu verdadeiro paradeiro, haviam-na achado em uma avenida em um dia de frio e um pouco debilitada por algum tombo que havia levado. Estava cabisbaixa e não conseguia sorrir. Levaram-na para o hospital, trataram dela e só estavam esperando que algum de seus familiares desse por falta dessa ilustre senhora e fosse procura-la. Mas isso não havia ocorrido até o exato momento. 
Seu nome era um mistério, mas todos a tratavam-na carinhosamente por vó Lúcia, por usar em seu pescoço um pingente que trazia gravado esse nome em letrinhas brilhantes e coloridas. Se esse era seu nome, não sabiam, mas a chamavam-na assim. Todos do hospital sabiam quem era vó Lúcia, uma senhora loira e de sorriso encantador, não conversava, mas sempre ouviam ao amanhecer do dia ela cantarolar um: Lá – lá – lá – rá – rá – lá, a música era indefinida, mas ela sabia bem o que estava cantando. 
Todos a adoravam. Tinha aproximadamente seus setenta anos, mas tinha energia o suficiente para se considerar uma adolescente. Todas as manhãs pegava seu saquinho de soro e ia andar pelo hospital, olhar o jardim, observar as plantas e fazer o que mais adorava, cantarolar pelos corredores vazios e gelados daquele hospital imenso. Era engraçado ver que uma paciente se sentia feliz ali. Já tentaram perguntar-lhe onde morava, mas a única resposta que ressuou foi sua cabeça mexendo de um lado para o outro significando que não sabia. Os médicos gostavam tanto dela que todas as manhãs trocavam seu soro antes que dos outros pacientes e também lhe davam seus remédios, descoberto em alguns exames que havia hipertensão e diabete. Estava feliz ali. 
Nunca havia recebido uma visita. Mas a equipe de enfermagem e os médicos viraram sua nova família. Às vezes, pegava em mãos uma folha de papel e escrevia algumas coisas e deixava no criado mudo que estava ao lado de sua cama, os médicos passavam e queriam ler, mas ela nunca deixava. Mistério. O que havia ali? Mas como ela nunca deixou que vissem a curiosidade dos outros apenas aumentava, entretanto guardava aqueles papéis a “sete chaves” quando saía de seu quarto, com medo que alguma de suas companheiras de quarto o lesse. Eram seis. 
Não tricotava. Mas quando a encontraram estava com uma agulha de tricô em mãos um pouco ensanguentada. Devia ter a sujado com alguns de seus ferimentos que estavam expostos. Então resolveram deixar um novelo de tricô em seu criado mudo junto com sua agulha, nunca se quer for mexido, era olhado com receio por ela. Os médicos acreditavam na possibilidade que houvesse tido algum susto ou até um trauma e afetado seu raciocínio. Visto que, não sabia de sua vida. 
Mas o hospital nunca mais foi o mesmo após sua chegada. As enfermeiras estavam sempre ocupadas correndo de um lado para o outro porque algum paciente estava desesperado precisando ser socorrido com urgência, às vezes estava sendo asfixiado por falta do tubo de ar com oxigênio que usava para respirar ou até então o soro que era trocado pelo hidrogênio. Estranho. Mas estava registrado que vó Lúcia havia adentrado no dia oito de agosto, e nesse mesmo dia começaram a ocorrer essas loucuras que o hospital considerou um ato de homicídio para com os pacientes. Os enfermeiros brincavam entre si que vó Lúcia era uma terrível assassina que após bater com a cabeça esqueceu-se do que fazia, e ao voltar para o hospital estava recuperando a memória e se lembrando. Besteira. Uma senhora de setenta anos sendo a causadora dos eventos que haviam ocorrendo, visto que no dia que ela chegou estava muito debilitada para ir até o quarto vinte e três, onde um senhor estava gritando por que seu soro havia sido retirado. Falta do que fazer por parte dos enfermeiros. 
Mas eram infinitas as hipóteses de como estavam havendo tais ocorridos. Entretanto que nenhum deles eram convencedor o bastante, até o dia que levaram todos os pacientes para uma atividade recreativa ao ar livre. O dia estava belo. E as faxineiras aproveitaram para lavar as roupas de camas e cobertores, e eis que acharam os papéis de vó Lúcia embaixo de seu colchão, eram assustadores e levaram ao diretor do hospital que chamou uma psicóloga para conversar com a senhora. 
Primeiro mostraram-lhe um papel que havia um desenho palito mostrando uma moça arrancando fora o pescoço de outro e embaixo havia o seguinte escrito: Roncava a noite, todas as noites. Quarto 23. Ela não disse nada sobre o papel e apenas abaixou a cabeça e permaneceu muda por todos os papéis que passaram. Arrancando soro; cortando uma perna; derrubando uma enfermeira; xingando um médico; roubando seringas; pegando remédios de pacientes e trocando-os; e muitos outros. Os enfermeiros ficarão abismados e assustados com tais escritos: Degolaram ele. Quarto 14; Trocaram remédio de diabetes. Quarto 18; Derrubaram ela. Corredor. 
A psicóloga levou em consideração que tudo escrito estava no passado e deu a explicação que a senhora havia apenas registrado no papel o que havia ocorrido no hospital e que pelo fato dela ter desenhado e escrito não provava que ela havia feito tal ato. O diretor concordou, mas pediu que a psicóloga viesse sempre para conversar com ela. 
Deram os papéis na mão da vó Lúcia e pediram desculpas por tal intromissão e disseram que não passava de uma política de segurança do hospital para com os pacientes. Ela sorriu, e voltou para seu quarto e guardou todos os papéis de volta embaixo de seu colchão. A cama estava lá de volta, mas em cima da cama ela deixou um bilhete: "Cama de Hospital. Segredos abaixo do colchão. Dúvidas sobre os papéis. Acusações a meu respeito. Mas fui inocentada por uma linda moça. Tola".
Nunca a viram mais depois disso, pelo menos não nesse hospital. – Nota do hospital São Vicente, 13 de novembro – SP. 


(Uma pequena narração para entender um pouco sobre nossa querida Larissa (Ninna). Ela escreve muito bem e quis entender um pouco como seria criar um psicopata. Não fui muito a fundo, mas deixei o final bem intrigante. Depois pretendo criar a parte II e finalizar para não deixar essa expectativa do que houve com a vó Lúcia. Mas voltando ao assunto sobre a Larissa, eu posso afirmar que ela é muito feliz escrevendo sobre psicopatas kkkkk, é uma aventura incrível, estilo Sherlock Holmes atrás de um mafioso. Mas valeu a experiência).

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