terça-feira, 28 de julho de 2015

Amanhã não teremos ensaio! (CONTO).


Simplesmente não pude lhe dizer adeus. Triste, um tanto quanto lamentável de se pensar que a vida passa por nós em questões de segundos. No mesmo momento que temos tudo, podemos estar diante de um abismo: grande, alto, límpido e rochoso, onde apenas avistamos ao longe um vasto horizonte, com sol prestes a se pôr, pássaros que se vão em direção ao nada e desaparecem conforme se distanciam de nós. É tudo tão rápido e ao mesmo tempo inexplicável aos olhos de quem apenas assiste a essa apresentação que estamos encenando chamada: VIDA.
Os sentimentos embaraçosos aqui dentro do peito gritando de um lado para o outro pedindo para serem ouvidos e escutados por alguém que esteja do lado de fora do nosso ser, que possa ouvi-los gritar incessantemente por atenção, que possa ouvi-los chorar amargamente por um inoportuno feito errado sem pensar, que possa ouvi-los resmungar entre lágrimas de um provável desfecho de não esperado final feliz. Enfim, o abismo ainda continua aqui, límpido, vasto e longínquo o bastante para se avistar os pássaros que se foram por entre as nuvens.
Era tarde da noite, voltar para casa nessas condições perigosas que o próprio mundo se encontra nos dias atuais faz me pensar que o tempo evoluiu e o perigo pegou uma carona juntamente ganhando novas formas compassivas de exatidão e violência. Passos largos e rosto cabisbaixo a ponto de somente enxergar meus pés pisando firmemente e rápidos por entre as calçadas sujas e quebradas, que faziam cada cadeirante que por ali fosse confinado passar a lamentar incessantemente por manutenção. Acima de minha cabeça apenas um céu totalmente escuro e nublado, sem estrelas, sem lua e muito menos iluminação nos grandes postes que por ali se tinha. apenas uma longa avenida pela frente e nem sinal seres humanos indo ou vindo. 
Acovardar-se e ficar ali a noite inteira esperando que uma ligação trouxesse um conhecido, familiar, parente, não estava em meus planos, apenas gostaria de seguir meu fúnebre caminho que me coloquei e forcei a percorrer. Parar e vangloriar dentre as rochosas aberturas que havia na calçada enquanto estendia a mão em busca de carona não seria um fator que eu poderia pensar, nem muito ao menos colocar em mente como aceitável. Eu mesmo me coloquei naquelas condições e eu mesmo deveria assumir os riscos que propus a correr. Aliás, era fim de tarde e me coloquei a caminhar pela cidade sem rumo para pensar na vida. Escureceu, como já era previsto e cá estou eu pensando em como preservar a vida que eu saí para pensar.
E o inesperável aconteceu, por entre becos que bifurcam a avenida saiu uma sombra de quase 1,90 de altura, blusa moletom preta e touca da própria blusa sobre a cabeça deixando apenas que sua silhueta vagasse pela longa avenida vazia e sem almas, com exceção de minha pessoa vagando por ali o mais rápido que podia atrás de alguém que pudesse me acompanhar ou pelo menos dizer que ali não seria perigoso a essa hora da noite, por mais que no fundo eu pudesse saber que seria uma grande mentira encoberta de consolo para me acalmar. Resolvi acompanhar a sombra de 1,90.
O tempo não passava e a avenida não finalizava, mal podia se enxergar o seu fim ou visualizar algum comércio ou ponto de vendas por ali. A sombra tinha passos largos e compassivos, andava com grande rapidez, digamos que apenas fez com que minha ansiedade e medo acelerassem meus passos para andar com mais agilidade em direção a minha casa. Sair para pensar na vida e simplesmente não voltar? Não era o que eu tinha em mente. Na verdade não tinha nada em mente, queria apenas avistar a minha casa, entrar direto para o meu quarto e agora pensar lá dentro. Mas não podemos ensaiar a vida.
E infelizmente estar na hora errada e no lugar errado faz com que tudo venha a se desmoronar. Chorar não adianta em meio a tantos conflitos interiores que poderiam estar acontecendo naquele momento. Ver o céu escuro, compassivo, visto verticalmente enquanto ali no chão estava. Som de sirene ao fundo, paramédicos a volta, tudo indo e vindo, "insights" da vida real e da esperada oportunidade de chegar em casa e lá poder pensar. Por que saí para pensar? Por que saí para ver o que não vi  no conforto do lar? Por que? Por que? Tantas perguntas e nenhuma resposta além de um balão de oxigênio e um pouco de hiperventilação própria. Um pouco de sangue nos paramédicos. Aliás, muito sangue nos paramédicos. Só consegui avistar o que se encontrava na vertical e aquele lindo e fúnebre céu escuro. Até que tudo escureceu...
Poderia ser eu o culpado de deixar minha família triste, aos prantos, sem consolo, amigos desamparados, parentes com dúvidas, meus pensamentos em vão, minhas ideias se soltarem pelo céu escuro e fúnebre, meus dizeres ensanguentados, meus gestos imobilizados, memórias acabadas. Não há quem culpar. Não há dor, não mais. Não há desalinho intelectual. Não há feridas, se há, não avisto-as mais, apenas o que está na longa vertical. Não há mais nada. Vamos cantar, rir, dançar, abraçar-se, lacrimejar, amanhã não teremos ensaio nesse grande palco da vida. Não teremos refletores e holofotes direcionados para a alma que canta, grita, fala e sorri para o mundo. Não teremos mais obstáculos para passar nem muito menos sonhos a alcançar, apenas avistar o que está na vertical.
Simplesmente não pude lhe dizer adeus ao grande abismo que ficou entre mim e aquele grande céu, nublado, fúnebre, escuro, sem estrelas, sem lua e sem luz. Simplesmente não pude dizer adeus aos familiares, aos amigos, parentes, conhecidos, pensamentos, ideias, sonhos, realizações. Simplesmente não pude dizer adeus a mim mesmo, nem ao menos dizer adeus ao que eu considerava ser eu ou que pudesse vir um dia a ser eu. 
"Viva. Grite. Pule. Interprete. Fale. Chore. Corra. Caia. Sorria. Contagie. Case. Vote. Seja. Ouça. Olhe. Escute. Veja. Cante. Morda. Ande. Diga. Pense. Conte. Leia. Viva!!! Porque amanhã só veremos um céu fúnebre e tudo o que estiver na vertical, desde que não esteja escuro como está..."

O Observador.

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