segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Os gatos que o digam...


"As vezes por medo ou dicotomia, você talvez pense sobre a situação. As vezes por desatino ou imprecisão, você talvez queira saber o porquê. As vezes por entrelinhas ou prosas, você talvez sussurre um EU TE AMO novamente. As vezes talvez você seja simplesmente assim:  as vezes talvez ou talvez as vezes" - Christopher Duarte.


Escrever é desabafar. Sem sombra de dúvidas os escritores trazem consigo um dom de poder sentar de frente a uma folha de papel ou até mesmo diante de um notebook e redigir por longos minutos, horas ou até mesmo dias, o que estão sentindo dentro de si e que desejam compartilhar de forma objetiva ou as vezes subjetivamente com os que o rodeiam. Poderia eu hoje começar um conto e narrar como personagem principal, poderia eu redigir um poema sem gênero destinado a qualquer pessoa que se prestasse ao luxo de entregar como carta de dia dos namorados, poderia eu finalizar um texto passado que teve como desfecho um final não tão interessante. Mas ao invés disso resolvi despir-me das armaduras "eu líricas" que vestimos, das espadas literárias que usamos, dos escudos de pseudônimos que temos e do elmo de escritor que levamos conosco.
O sol brilha lá fora com todo seu fulgor estonteante, fazendo com quem se aventura por entre as ruas deseje incessantemente avistar uma sombra ou uma miragem de uma e perante ela se recostar. Não seria a toa que as pessoas desejem sair quando o mesmo se põe e leva consigo a chama viva daquele dia longo e cansativo que se encerra com sua ida flamejante no horizonte infinito. Nem mesmo pedir a tão esperada noite que traga-o de volta sem antes fazer-se perdurar belos pontos de luzes no céu, com temperatura a cair gradativamente e corpos a se unirem por entre vielas e avenidas que esvaziam-se fora do horário de pico. Para no dia seguinte avistar aquela luz de vida, de início, de priori que sobe gradativamente e vai fazendo sumir com maestria os vestígios de uma longa e perduradora noite com pontos brilhantes que se ofuscam com aquele fulgor imenso e dão lugares a novas formas de algodão macio ao céu.
Porém, a vida não para e a noite não é infinita, sobre muros esburacados, dentro de lata de lixos entreabertas, sob carros estacionados nas ruas, entre janelas de residências que espreitam o que ocorre e que se mexe do lado de fora, lá estão eles, curiosos, atentos, alertas e em vigia constante do que pode ser sua nova história. Ficam instintivamente vigilantes e demonstram tudo o que sentem com o olhar, aliás, que olhar belo e cheio de mistério, que desfrutam por entre os becos e vielas um novo mundo que vai do chão ao céu que não o impõe limites nem mesmo rédias para que deixem de procurar. São jornalistas com garras. Delegados com olhos misteriosos. Advogados ágeis. Estilistas em sua pelagem. Maquiadores em seus detalhes incontestáveis. Modelos em seu caminhar. Mas nada que o tirem o prazer e a alegria de observar a vida alheia, brincar entre escombros e se sujar com risco de levar uma provável bronca caso haja um possível chefe a esperar ansiosamente pela sua chegada ao amanhecer.
Talvez possa ter sido um desses "paparazzis" da madrugada a fora que tenha avistado onde foi que me enchi de amor e realmente errei em dar o primeiro passo resolvendo ouvir meu coração alguns anos atrás desejando que outro coração escutasse. Fazendo com que uma pequena omissão de meus sentimentos joviais apenas se dirigisse a você como minha primeira forma de coragem a ser esboçada com apenas 14 anos. Tolo, alto por genética, com espinhas fazendo meu rosto de batalha naval e aquela pele oleosa que reluz com o brilho da lâmpada incandescente... sério que eu me apresentaria assim? Infelizmente foi assim mesmo que me apresentei, naquele exato momento os curiosos de plantão com olhos de mistério que pudessem estar me avistando na varanda a fora daquele encontro para catequistas, deveriam estar escrevendo críticas e fazendo anotações bizarras que humanos quando amam literalmente ficam cegos, dando mais força a expressão cultural.
Acredito que pedir um simples MSN fez com que eu me tornasse realmente um escritor no ano que sucederia aquele, por conta de ser esnobado, ser respondido apenas quando viesse a convir, ser segunda opção e tantos outros adjetivos que poderíamos incluir pegando apenas um simples relatório de alguém que colocou esperanças em um amor que nunca desabrochou. Os anos se passaram e resolvi assumir a profissão que me circundava naquele e em qualquer momento que deixamos passar desapercebidos, a profissão que faz com que esses profissionais sejam tratados com certo desamor por serem seres que não podem ser domados, a profissão que faz a independência e a maestria deles não ser apenas superficial, a profissão de ser um observador.
Não vou me lamentar por anos passados, por frases não ditas, por sentimentos não expostos, por verdades não escritas, por poemas dedicados, por textos retratados, por um pedaço da vida sendo vivida com pensamento totalmente voltado a alguém que nem ao menos fez alguns poemas meus valerem a pena ou as madrugadas em claro escrevendo um livro sobre um sentimento reprimido. O passado não encheu nada mais do que os olhos desses pequeninos observadores de plantão que deitam majestosamente sobre o muro nos encarando sem qualquer receio. As suas sete vidas seriam totalmente gastam para nos observar e por meio de pequenos gestos tentar nos ensinar que seu amor tem que ser conquistado e não domado. Eis a maior lição que esses pequeninos de olhos grandes misteriosos, com longas e delicadas patas, com pelagem singular e maestria me ensinaram: o amor não pode ser domado, deve ser doado voluntariamente, se doado deve ser cativado.
Eis que hoje irei apenas continuar observando e esperando alguém que mereça esse amor voluntário, mas que acima de tudo saiba cativa-lo para que eu possa viver minhas sete vidas de observador em paz. 
Quem comprova isso? Quem espera ser amado voluntariamente? Por que não domar o amor? Quando observar? Não responderei. Os gatos que o digam...

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