quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Pobre escritor...



Pobre escritor, encontra-se preso em sua insônia e nas inúmeras xícaras de café que o fez pernoitar doravante que um novo texto escrito irá compreendê-lo e acalmar seu ansioso coração incompreensível. Não estou dizendo que escrever não traz paz a sua alma, nem tampouco que os desalinhos emocionais criados são esvaídos em cada parágrafo redigido minuciosamente entre tantos que já fez, porém, entretanto, todavia, vale ressaltar que escrever sem rumo é o mesmo que descer uma tirolesa com os olhos vendados, você sabe que a sensação será agradável, mas não irá curtir a visão que teria do percurso se estivesse atento e observando. Assim é o escritor que escreve sem rumo, sem desalinhos, sem emoções, só por obrigação e cobrança a si mesmo para sentir-se bem ao fim de cada texto e com a sensação falsa de dever cumprido, terá vários textos brilhantes escritos, mas não aproveitou, nem tampouco desabafou o que seu interior gritou incessantemente para ser ouvido.
Entretanto, não são os longos textos que moldam a característica do escritor em questão, a necessidade de escrever sempre foi o seu auge literário mais pleno, deixou-se hipnotizar pela literatura desde muito cedo, tornou-se o meu seriado predileto em que auto denominei de “licença-poética do meu pequeno escritor”, comecei a sondá-lo desde criança avaliando seu comportamento e interação, quase um reality show mirim sem câmeras e holofotes, apenas um palco imenso denominado vida e um intérprete protagonista de sua própria história que um dia se tornaria sua autobiografia, consequentemente mais tarde poderia também considerar seu script não lido de seu passado.
Caracterizar o que nunca nem ele próprio (escritor) caracterizou se torna uma das mais árduas tarefas, seus sentimentos nunca foram constantes, seu interior nunca esteve completo, posso descrever seus sentimentos como castelos de areia que se desmoronam facilmente, nunca haverá uma segurança por mais que se pareçam com um Forte de Copacabana ou uma grande muralha, sempre serão belos e ao mesmo tempo frágeis de se desmanchar com o tempo ou um simples toque. Acredito que ao decidir escrever e expor no papel toda aquela criatividade armazenada foi quando ele mais precisou de um outro escritor para compartilhar e trocar ideias, mas é orgulhoso demais para admitir que escrever não era uma tarefa fácil e tão divertida quanto imaginava, sorriu por cada texto que saiu como esperado, vibrou com cada parágrafo que o satisfez nem que fosse momentaneamente e chorou por cada parte sua que era despedaçada e impactada no papel para que agora as demais pessoas pudessem ler. Foi quando houve a necessidade de um pseudônimo, O Observador...
Não indo muito longe da linha de raciocínio, pobre escritor, estava cheio de sentimentos indescritíveis por dentro e impactando cada qual no papel, porém, houve algo que só se fez claro quando se deparou com várias partes de si expostas ao mundo, estava tudo exposto para quem quisesse ler e decifrá-lo, passou de alguém sorridente e criativo para os títulos e características que seus textos agora o deram: “sorri, mas não é feliz no amor”, “autocrítico demais, detalhista demais, perfeccionista demais”, “acredita que amanhã será um dia melhor”, “a perda deixa um vazio”, “se autoflagela por um último abraço que não deu”, “escreve auto ajuda, mas não se autodenomina nos padrões”. Era demais, quem quer ser lido dessa forma da noite para o dia? Então O Observador supriu esses medos e se auto intitulou de todas as incertezas que o escritor não pode carregar.
Estava sanada a incerteza de uma possível futura condenação, o pseudônimo assinaria todos os textos como um carimbo, seria a tinta negra que ficaria ali exposta para receber críticas, elogios e até deixar surgir dúvidas perante um pensamento inacabado do escritor. A incerteza de ter sentimentos incompletos faz com que tenha o intuito de querer conceitua-los para se ter certeza de que realmente eles habitam em si. Assim o fez. Pobre escritor, tão novo, na flor da puberdade e se deparando perante uma floresta imensa que teria que adentrar e decifrar cada canto para escrever seu próprio conceito de cada sentimento posto em seu pequeno coração gigante indecifrável. Como dizem: não são as respostas que movem o mundo, mas sim as perguntas! Lá estava ele decifrando cada canto de seu interior, tentando alavancar sua pesquisa sobre si próprio.
Vale ressaltar que o amor se fez o mais difícil de decifrar, várias noites em claro vivendo uma incógnita constante sobre a reciprocidade desse sentimento, quem escreve sobre amor se nunca o viveu? O escritor conceituou a ilusão, tristeza, negação, mas não o amor. Estava escrevendo todos os seus antônimos, mas o mais próximo que chegou de conceitua-lo era comparado a felicidade, mas não poderia dizer ao certo se ela seria uma das qualidades do amor ou se igualaria a paixão. Ele não queria conceitos prontos, não queria folhear uma revista adolescente e ler escancarado na primeira página a diferença entre amor e paixão, queria seu próprio conceito, sua própria verdade, queria conceituar cada sentimento na intensidade que vivia cada um, não queria generalizar como muitos fazem, queria algo seu, apenas seu.
Quando em um ato de rebeldia literária resolveu dar asas à imaginação e praticar a licença poética, escrever parágrafos imensos e sem fim, não pontuando com vírgula, fazendo seu leitor criar sua própria pausa ou se tornar um rapper caso não soubesse usar a pontuação. Seu intuito era de fazer seu leitor sentir uma pequena dose do que é o amor, o parágrafo imenso e sem pontuação significaria o amor, conforme vai lendo você vai desfrutando desse sentimento, os mais experientes sabem a hora certa de parar e criar sua própria vírgula, enquanto os menos experientes com a gramática iriam lendo sem pausas até quando aguentassem e acabassem com o fôlego, assim é uma das características do amor: a partir do momento que você aprende a colocar a vírgula, você não é sufocado. Simples, mas profundo.
Acredito que agora o leitor comece se familiarizar do porquê estive tanto tempo observando esse pequeno escritor e vendo se tornar um homem, passando pelas pequenas dúvidas e incertezas da vida, sendo o alicerce de seus sentimentos e buscando entender-se um pouco mais a cada dia. Não que os momentos ruins não estivessem presentes, pois eles ali estavam, quer incentivo melhor para querer entender-se do que perder o pai apenas aos 8 anos de idade? Quer um motivo para decifrar suas incertezas quando não se tem a mãe por perto? Quer um significado palpável da razão de escrever sendo que lhe foi tirado quando tinha apenas 15 anos a única pessoa que cuidou dele a vida toda? Talvez por trás de cada sorriso houvesse uma dor a ser escondida e com o tempo para não se ver sempre chorando houve a necessidade de fazer-se forte e sorrir.
Pobre escritor, pouco entendo de seus dilemas, apenas me ensinou a ser forte e ser aquele que suporta suas dores, ser aquele que é taxado de acordo com suas linhas, ser aquele que é visto de acordo com seu parágrafo, ser aquele que sempre irá assinar ao fim da página quando você quiser um ombro amigo e se esconder do mundo.
Pobre escritor...

De seu querido amigo,
O Observador.

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