sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Um cachorro e um pássaro, eis o maior presente. (Conto)

"Não é comum" é totalmente diferente de "não é normal". Usar as palavras corretas quando direcionadas para as pessoas que te rodeiam fazem toda a diferença. O fato de não ser COMUM, não significa que não é NORMAL. - Christopher Duarte.

E logo surge descendo a rua aquela linda criança de olhos caramelados e cabelos castanhos, trazendo consigo novamente uma folha de sulfite em uma das mãos e na outra um giz de cera azul. Descia a rua saltitando e cantarolando uma das prováveis músicas que ouvira tocar em um desses celulares infantis que cantam incessantemente uma música gritante aos ouvidos dos adultos, mas que para as crianças nada mais é do que um doce convite para a diversão. A cada passo que dava a alegria em seu rosto aumentava cada vez mais, pois sabia que seria um dos raros momentos do dia que poderia ser livre para ser criança, poder brincar, poder sorrir, poder finalmente ser feliz em meio as singularidades que o mundo lhe propôs.
Se chamava Breno, aparentava ter seus oito anos de idade, mas quando perguntado não sabia ao certo a idade que tinha, roupa surrada pelo tempo e pelas várias vezes que havia a usado, sujas de poeira na barra da calça e rasgadas em algumas outras partes, como na perna e próximo dos bolsos. A camiseta branca que transformou-se em um bege escuro por conta da sujeira que provavelmente ali se acumulou. Os olhos brilhantes e o sorriso resplandecente diante de um rosto sofrido e maltratado pelo tempo e pelo árduo trabalho que realizava todas as manhãs. Andava descalço nesse sol escaldante das duas da tarde e quando perguntado se o sol machucava seus pés, apenas acenava que sim com a cabeça e dizia que quanto mais rápido corresse, menos sentiria o calor do asfalto. 
(Breve pausa para respirar fundo).
Andava todas as manhãs de casa em casa pedindo alimento, sozinho, descalço, se vendo obrigado pelas circunstâncias da vida a seguir sem reclamar, sem entender porque realmente estava ali. Mas nem sempre foi assim, antes caminhava ao lado de uma senhora que provavelmente viesse a ser sua avó, que o acompanhava nessa árdua trajetória matinal atrás de alimento, porém, após um tempo, somente Breno continuou nesse trabalho massacrante até mesmo para os olhos de quem observava ao longe o garoto se deslocar de portão em portão batendo palma ou saltando para alcançar as campainhas altas de cada casa. Soube depois que a senhora havia falecido, deixando apenas a responsabilidade à aquela pequena criança que mal poderia entender tais atrocidades que a vila lhe propôs.
Chamar o conselho tutelar? Sim, é uma alternativa, mas as pessoas não pensam que há seus pontos bons como ruins, envolver o conselho tutelar envolve a possibilidade da criança ser retirada da família, ser afastada de seus irmãos que se chegarem a ser adotados serão cada um deles encaminhados para um lugar diferente ou se derem sorte (o que é muito raro) serem adotadas juntamente. Entretanto, terão um lugar melhor para morar, não haverá mais situações como essas em seus dia a dia de pedir alimento durante o dia e que recebessem o verdadeiro carinho e amor que merecem. Mas a pergunta ainda é: pesando ambas os lados (bom e ruim/prós e contras), o que fazer?
(Breve pausa para pensar).
Não sabia o certo quem era sua família, ele mesmo evitava tocar no assunto, mas dizia ter um pai, este catador de latinha e reciclagem, uma mãe e mais um casal de irmãos menores, uma família tradicional, divergente apenas pelas dificuldades que passavam. Entretanto, vinha Breno todas as manhãs e as vezes após o horário de almoço, com um folha de sulfite que provavelmente deve ter achado  junto a reciclagem que seu pai recolhe pela cidade e com o seu único giz de cera azul para me pedir que desenhasse algo para ele ter o que colorir a noite quando terminasse de juntar os alimentos. Eu sempre desenhava um cachorro e as vezes um pássaro, nunca ouvi reclamações da minha pouca habilidade de desenhar, apenas um grande sorriso era estampado em seu rosto juntamente com aqueles olhos grandes e brilhantes que em sintonia com os risos faziam daquela a criança mais feliz do mundo. Dava-lhe algo para comer e ficava sentado junto ao portão vendo ele partir sorridente com o desenho em mãos.
Necessitava de roupas, chinelos, alimentos, mas acima de tudo necessitava de atenção, amor e uma infância que aos poucos era perdida gradativamente por não ter tido a mesma "sorte" ou no seu caso a "liberdade" de poder ser uma criança.
Na manhã seguinte, Breno não desceu a rua saltitando com uma folha de sulfite e seu giz de cera azul. Ele não bateu no portão das casas e nem ao menos saltou para apertar as campainhas altas. Não bateu palmas e nem chamou o dono da casa com sua voz doce de criança. Aguardei o horário pós-almoço e a mesma situação se perdurou. Peguei uma caneta permanente e desenhei sob meu telefone fixo um cachorro e um pássaro e a partir daquele momento eu soube: aquela ligação que fiz no dia anterior para o conselho tutelar foi o melhor presente que pude dar ao Breno.

O Observador.

Nenhum comentário:

Postar um comentário