quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

O Piano (Conto)


E novamente eu me encontrava naquela imensa rodoviária em meio aquelas pessoas estranhas, só para poder desfrutar do som que emanava de sua alma e se chocava com o som das notas daquele piano imenso de calda - simplesmente lindo.
Era um ritual matinal e de certa forma sem explicação, sempre a avistava ao longe, pois sabia bem como se vestia, vestido lilás de bolinhas brancas com bordado a desejar ser remendado, era único, cabelo desgrenhado, mas ali havia uma fita branca que segurava aqueles fios ressecados. O vestido era o seu chamativo dentre os que ali passavam - manga curta, se estendia até seus joelhos, que por sinal estavam calejados e sujos por conta de algum tombo recente, o vestido terminava com um fino bordado feito a mão de cor branca, mas que no momento estava com aparência amarelada e estava se despregando do tecido, seus dias estavam contados. Seu rosto era angelical, trazia consigo um olhar que causava curiosidade em descobrir o que já havia vivido, sua boca estava ressecada e sempre via-a mordendo fortemente os lábios como se estivesse aflita, as maçãs do rosto estavam sujas e sua testa nem se fala, as mãos e unhas encardidas e surradas pelo tempo, aparentava ter seus vinte e cinco anos, mas se escondia atrás daquelas vestes uma grande mulher. Estava com aparência de uma moradora de rua, talvez realmente fosse uma.
Mas meu itinerário até a faculdade não foi mudado à toa. Tudo começou em uma bela e exaustiva manhã de domingo, onde os pássaros cantam nas árvores e o sol ressoa cada vez mais forte tornando o dia lá fora ótimo para fazer-se algo. Realmente, um dia ótimo e típico de verão, onde o sol escaldante faz-nos que saiamos do apartamento com ar-condicionado e dirijamo-nos à praia para desfrutar daquele mormaço escaldante. Enfim, calor chama as pessoas e as convida para um ótimo banho de mar para se bronzearem e depois ficarem por dias reclamando caso alguém o toque na parte que ficou sensível ao sol. Pois bem, resolvi seguir o protocolo que a sociedade impõe, desci dois lances de escada, visando que o elevador se encontra em manutenção - mais um motivo para se permanecer em casa - coloquei uma toalha de banho sobre o ombro direito e um livro de capa dura de autoajuda na mão esquerda.
Dirigi-me a praia, apenas para passar pelo porteiro e fazer com que ele perceba que também tenho um vínculo social ativo, pois até onde sei, o mesmo me apelidou de “confinado”, segundo o que me disseram seria por conta da minha aparência pálida e a restrição de sair para se divertir e sair da monotonia do trabalho ao apartamento, do apartamento ao trabalho. Entretanto, não busquei arrumar discórdia entre nós, apenas cumprimentei o porteiro com um leve balançar de cabeça e ele retribuiu com o mesmo e mais um largo sorriso nos lábios. Não retribuí o sorriso, mal ele sabia que me contaram sobre o apelido que ele se dirigia a minha pessoa.
Saí do prédio e atravessei aquela avenida infernal, com trânsito mais infernal ainda e aquele mormaço que era o próprio inferno. Os motoristas dos carros buzinavam incessante para os pedestres que se viam no direito de atravessar na faixa de pedestres, outros se colocavam para fora do carro apenas se sobrepondo sobre a janela e xingando os motoqueiros que passavam entre os carros com suas manobras perigosas, havia também aqueles caminhões barulhentos que só soltavam aquela fumaça na cara das pessoas e mal conseguia se locomover. E assim se encontrava a avenida nesse “lindo” início de domingo.
Consegui atravessar a avenida a salvo chegando a calçada que dava acesso a areia da praia, coloquei nesse exato momento meus óculos de sol e pus-me a andar em busca de algum lugar que me abrigasse do sol. Infelizmente era um domingo de manhã, onde todos, TODOS mesmos, resolvem se dirigir a praia em busca de seu banho de sol e mar, ou seja, qualquer lugar com sombra estaria sendo ocupado por alguma família com crianças que não podem ficar muito tempo ao sol para não se queimarem tanto, - então por que vão à praia? – Não sendo grosso e mantendo o humor, resolvi continuar a busca incessante por esse lugar que me refugiaria do sol escaldante e me abrigaria provisoriamente até meu regresso ao meu ninho – lugar de onde nunca deveria ter saído.
Após quarenta e três minutos contados em busca de um lugar eis que acho uma pequenina sombra bem abaixo de uma grande rocha que se encontrava na areia da praia, não pensei duas vezes, estendi minha toalha e ali me sentei, abri o livro e pus-me a ler. Você deve estar se perguntando: Por que não leu o livro em casa? Seria mais confortável e agradável - então, eis que realmente saí somente para quebrar aquele tabu com o porteiro de ficar me intitulando com apelidos em minha ausência. Tonto eu, não?
Continuando, ali fiquei por exatamente dois minutos, visto que fui obrigado a me retirar por conta de ter uma “criança abençoada” pulando em cima da grande pedra e jogando areia por todos os lados, caindo em meus olhos, no livro e consequentemente em todo o meu corpo. Levantei-me furioso e com a intenção de repreendê-la, até que me deparo com o ser que estava jogando terra e fico sem reação. Era uma moça de vestido lilás com bolinhas brancas e bordado a desejar ser remendado. Foi a primeira vez que a vi. Não conseguia dizer nada e ela continuava a saltitar toda sorridente com as mãos cheias de areia e rodopiando sem parar.
- Com licença, moça – Ela mal me olhou, continuou a rodopiar – Com licença, você está me incomodando, está caindo areia em mim enquanto você se diverte pulando sem parar igual um canguru. – E ela continuava pulando sem parar sem se dar a mínima importância ao o que eu a dizia.
Resolvi voltar embora, vi que foi um erro sair do meu apartamento para tentar interagir com o meio social. E eis que a misteriosa moça de vestido lilás com bolinhas brancas e bordado me surpreende me pegando pela mão e tirando-me para dançar. Não havia música, apenas pessoas conversando aos montes e uma gritaria infernal que vinha do trânsito juntamente com suas buzinas e “arrancadas” de carros às pressas.
Logicamente que soltei sua mão, não havia razão lógica para que dançássemos, não havia música, mal a conhecia e ela ainda era a moça que atirou areia em mim. Soltei sua mão e pus-me andar, quando estava próximo a calçada olhei para trás e pude ver que seus olhos estavam cheios d’água, pronta para derramar e transformar em lágrimas. Meu coração não era um dos mais samaritanos, mas não me senti bem com aquela situação. Voltei lá e pedi-lhe desculpas, disse-lhe que não era conveniente dançarmos daquela maneira em plena praia. Ela nada respondeu. Parecia conformada.
Pensando em me colocar a caminho de casa novamente vi a situação em que ela se encontrava e perguntei o que havia ocorrido, visto que estava totalmente suja, entretanto, ela nada me respondeu, apenas abaixou a cabeça. Perguntei se ela desejara tomar um banho - Estava fora de mim, desde quando convido um estranho para tomar banho em casa? E se ela for uma ladra? Mas nada disso passou na minha cabeça – ela apenas balançou a cabeça dizendo que aceitava. Pedi que me acompanhasse, no caminho até meu apartamento fui puxando assunto, mas nada ressoava de volta de sua boca, apenas ficava cabisbaixa e ao mesmo tempo desconfiada.
Até que enfim chegamos ao prédio, aquele silêncio constante por parte dela estava me matando, passamos pelo porteiro que logo fez gracejos a moça de forma pejorativa devido à forma que ela estava vestida, ele vendo minha expressão facial de indignação no mesmo momento pediu desculpas e colocou-se a separar a correspondência. Subimos os dois lances de escada e mostrei-lhe meu apartamento, parecia curiosa, olhava tudo com atenção e tocava em tudo. Quebrou uma de minhas taças da cristaleira e no mesmo momento ficou ressabiada, eu disse que não tinha problema, dirigi-a ao banheiro e dei-lhe uma toalha nova para que se enxugasse, desculpei-me por não ter roupas femininas, entreguei-lhe uma camiseta e uma bermuda minha. Enquanto ela tomava banho fui limpar a bagunça que ela havia proporcionado em tão pouco tempo. – O que estava havendo comigo? Ela bagunçou meu apartamento logo que entrou e eu a ajudo como se nada tivesse ocorrido. Sair da cama logo cedo e tomar aquele sol escaldante me deve ter feito mal.
Ao sair do banheiro vejo que ela se encontra com o mesmo vestido, devolveu minha roupa e resolveu ir embora, estava limpa, mas o vestido causava impressão de ainda continuar suja. Não disse uma só palavra enquanto esteve ali. Acompanhei-a até a porta e de lá ela foi embora. Saiu com um leve sorriso entreaberto, eu entendi que essa foi a sua forma de agradecimento de dizer obrigado. Mas nada disse enquanto estivemos juntos.
Dirigi-me a varanda para vê-la atravessar a rua. Após alguns minutos eis que atravessa saltitando em meio aos pedestres a moça de vestido lilás com bolinhas brancas com bordado a desejar ser remendado, mas com um diferencial, a moça que o vestia se encontrava no momento limpa e pelos saltitares: de bem com a vida.
Dias se passaram, e eis que a encontrei novamente na rodoviária, para minha surpresa: estava sentada de frente a um piano de calda maravilhoso e tocava maravilhosamente uma melodia que eu não conhecia. Esfreguei os olhos para ver se realmente era a mesma moça, e para minha surpresa novamente, era a mesma moça. Tocava com graciosidade e as notas vinham de dentro de si, fiquei ali por alguns minutos e nem me dei conta da placa que se encontrava ao lado do piano, dei-me por conta quando chamaram no alto-falante os passageiros com destino a São Paulo, estava tão fixado nela e na melodia que tudo ao redor estava quieto para mim.
A placa dizia: CHAMO-ME HELENA, TENHO 24 ANOS E NECESSITO FAZER UMA OPERAÇÃO NAS CORDAS VOCAIS, MORO SOBRE O CÉU E DESCANSO OLHANDO AS ESTRELAS, DESDE MEUS 12 ANOS DE IDADE NÃO POSSO DIZER UMA SÓ PALAVRA SE QUER, ME EXPRESSO POR MEIO DO PIANO E SUAS MELODIAS, QUALQUER AJUDA É BEM-VINDA. QUE DEUS ABENÇOE! 
Abaixo da placa estava uma pequenina bolsa branca de renda, onde os interessados a ajudar deixavam o quanto desejavam contribuir. Confesso que fiquei sem fala naquele momento, a moça que tentei ajudar por meio de um banho, nada mais era que uma pessoa necessitando da ajuda de um bom samaritano. Sim, nesse exato momento um samaritano conseguiria suprir o que ela desejara desabafar, visto que eu não estava apto para encarar essa situação.
Foi quando me dei conta do que acontece nos dias atuais, sempre que vemos algum problema, fugimos ou fingimos não o ver para não ter que enfrentá-lo e naquele exato momento era o que eu estava disposto a fazer, fugir e esquecer aquela situação. Mas parei e pensei. Abri a carteira e tirei uma nota de cinquenta reais e coloquei dentro da pequena bolsinha. Ela mostrou-me um olhar de agradecimento. Continuei a ouvi-la tocar, algumas pessoas que por ali passavam se emocionavam e sempre que terminava era aplaudida por todos que rodeavam o piano da rodoviária.
Como minha faculdade era na cidade vizinha todos os dias nossos horários se coincidiam, eu estava indo pegar o ônibus e ela esperando que juntasse o suficiente para sua operação. Nem sempre tinha dinheiro, mas todos os dias fazia questão de parar e ouvi-la tocar, retribuíamos com olhares e sorrisos, ela me olhava e o piano era sua boca, ele dizia o que aquele pobre coração desejava sair gritando aos quatro cantos do mundo. Seus pés sempre estavam cheios de areia, então sabia que ela vinha da praia para a rodoviária para tocar e depois não sabia mais ao certo para onde se dirigia. Apenas pude desejar-lhe esperança e que nunca desistisse, pois Deus com certeza tinha algo grande para ela. Ela apenas sorriu.
Todos os dias eu deixava-a tocando e ia pegar meu ônibus, a música ficava na minha cabeça tocando sem parar. O piano era o ventríloquo. Ele era o encarregado de transmitir as emoções e desabafar o que há anos vem querendo ser dito. O piano era o que chamava desesperadamente a atenção dos que ali passavam para se voltarem para a moça e apreciá-la.
Desgrenhada, suja, malvestida, pés com areia e rosto sofrido, mas uma coisa eu posso dizer: a moça de vestido lilás com bolinhas brancas e bordado a desejar ser remendado, tinha a voz mais linda que eu já ouvi.

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