quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

O Piano (Conto)


E novamente eu me encontrava naquela imensa rodoviária em meio aquelas pessoas estranhas, só para poder desfrutar do som que emanava de sua alma e se chocava com o som das notas daquele piano imenso de calda - simplesmente lindo.
Era um ritual matinal e de certa forma sem explicação, sempre a avistava ao longe, pois sabia bem como se vestia, vestido lilás de bolinhas brancas com bordado a desejar ser remendado, era único, cabelo desgrenhado, mas ali havia uma fita branca que segurava aqueles fios ressecados. O vestido era o seu chamativo dentre os que ali passavam - manga curta, se estendia até seus joelhos, que por sinal estavam calejados e sujos por conta de algum tombo recente, o vestido terminava com um fino bordado feito a mão de cor branca, mas que no momento estava com aparência amarelada e estava se despregando do tecido, seus dias estavam contados. Seu rosto era angelical, trazia consigo um olhar que causava curiosidade em descobrir o que já havia vivido, sua boca estava ressecada e sempre via-a mordendo fortemente os lábios como se estivesse aflita, as maçãs do rosto estavam sujas e sua testa nem se fala, as mãos e unhas encardidas e surradas pelo tempo, aparentava ter seus vinte e cinco anos, mas se escondia atrás daquelas vestes uma grande mulher. Estava com aparência de uma moradora de rua, talvez realmente fosse uma.
Mas meu itinerário até a faculdade não foi mudado à toa. Tudo começou em uma bela e exaustiva manhã de domingo, onde os pássaros cantam nas árvores e o sol ressoa cada vez mais forte tornando o dia lá fora ótimo para fazer-se algo. Realmente, um dia ótimo e típico de verão, onde o sol escaldante faz-nos que saiamos do apartamento com ar-condicionado e dirijamo-nos à praia para desfrutar daquele mormaço escaldante. Enfim, calor chama as pessoas e as convida para um ótimo banho de mar para se bronzearem e depois ficarem por dias reclamando caso alguém o toque na parte que ficou sensível ao sol. Pois bem, resolvi seguir o protocolo que a sociedade impõe, desci dois lances de escada, visando que o elevador se encontra em manutenção - mais um motivo para se permanecer em casa - coloquei uma toalha de banho sobre o ombro direito e um livro de capa dura de autoajuda na mão esquerda.
Dirigi-me a praia, apenas para passar pelo porteiro e fazer com que ele perceba que também tenho um vínculo social ativo, pois até onde sei, o mesmo me apelidou de “confinado”, segundo o que me disseram seria por conta da minha aparência pálida e a restrição de sair para se divertir e sair da monotonia do trabalho ao apartamento, do apartamento ao trabalho. Entretanto, não busquei arrumar discórdia entre nós, apenas cumprimentei o porteiro com um leve balançar de cabeça e ele retribuiu com o mesmo e mais um largo sorriso nos lábios. Não retribuí o sorriso, mal ele sabia que me contaram sobre o apelido que ele se dirigia a minha pessoa.
Saí do prédio e atravessei aquela avenida infernal, com trânsito mais infernal ainda e aquele mormaço que era o próprio inferno. Os motoristas dos carros buzinavam incessante para os pedestres que se viam no direito de atravessar na faixa de pedestres, outros se colocavam para fora do carro apenas se sobrepondo sobre a janela e xingando os motoqueiros que passavam entre os carros com suas manobras perigosas, havia também aqueles caminhões barulhentos que só soltavam aquela fumaça na cara das pessoas e mal conseguia se locomover. E assim se encontrava a avenida nesse “lindo” início de domingo.
Consegui atravessar a avenida a salvo chegando a calçada que dava acesso a areia da praia, coloquei nesse exato momento meus óculos de sol e pus-me a andar em busca de algum lugar que me abrigasse do sol. Infelizmente era um domingo de manhã, onde todos, TODOS mesmos, resolvem se dirigir a praia em busca de seu banho de sol e mar, ou seja, qualquer lugar com sombra estaria sendo ocupado por alguma família com crianças que não podem ficar muito tempo ao sol para não se queimarem tanto, - então por que vão à praia? – Não sendo grosso e mantendo o humor, resolvi continuar a busca incessante por esse lugar que me refugiaria do sol escaldante e me abrigaria provisoriamente até meu regresso ao meu ninho – lugar de onde nunca deveria ter saído.
Após quarenta e três minutos contados em busca de um lugar eis que acho uma pequenina sombra bem abaixo de uma grande rocha que se encontrava na areia da praia, não pensei duas vezes, estendi minha toalha e ali me sentei, abri o livro e pus-me a ler. Você deve estar se perguntando: Por que não leu o livro em casa? Seria mais confortável e agradável - então, eis que realmente saí somente para quebrar aquele tabu com o porteiro de ficar me intitulando com apelidos em minha ausência. Tonto eu, não?
Continuando, ali fiquei por exatamente dois minutos, visto que fui obrigado a me retirar por conta de ter uma “criança abençoada” pulando em cima da grande pedra e jogando areia por todos os lados, caindo em meus olhos, no livro e consequentemente em todo o meu corpo. Levantei-me furioso e com a intenção de repreendê-la, até que me deparo com o ser que estava jogando terra e fico sem reação. Era uma moça de vestido lilás com bolinhas brancas e bordado a desejar ser remendado. Foi a primeira vez que a vi. Não conseguia dizer nada e ela continuava a saltitar toda sorridente com as mãos cheias de areia e rodopiando sem parar.
- Com licença, moça – Ela mal me olhou, continuou a rodopiar – Com licença, você está me incomodando, está caindo areia em mim enquanto você se diverte pulando sem parar igual um canguru. – E ela continuava pulando sem parar sem se dar a mínima importância ao o que eu a dizia.
Resolvi voltar embora, vi que foi um erro sair do meu apartamento para tentar interagir com o meio social. E eis que a misteriosa moça de vestido lilás com bolinhas brancas e bordado me surpreende me pegando pela mão e tirando-me para dançar. Não havia música, apenas pessoas conversando aos montes e uma gritaria infernal que vinha do trânsito juntamente com suas buzinas e “arrancadas” de carros às pressas.
Logicamente que soltei sua mão, não havia razão lógica para que dançássemos, não havia música, mal a conhecia e ela ainda era a moça que atirou areia em mim. Soltei sua mão e pus-me andar, quando estava próximo a calçada olhei para trás e pude ver que seus olhos estavam cheios d’água, pronta para derramar e transformar em lágrimas. Meu coração não era um dos mais samaritanos, mas não me senti bem com aquela situação. Voltei lá e pedi-lhe desculpas, disse-lhe que não era conveniente dançarmos daquela maneira em plena praia. Ela nada respondeu. Parecia conformada.
Pensando em me colocar a caminho de casa novamente vi a situação em que ela se encontrava e perguntei o que havia ocorrido, visto que estava totalmente suja, entretanto, ela nada me respondeu, apenas abaixou a cabeça. Perguntei se ela desejara tomar um banho - Estava fora de mim, desde quando convido um estranho para tomar banho em casa? E se ela for uma ladra? Mas nada disso passou na minha cabeça – ela apenas balançou a cabeça dizendo que aceitava. Pedi que me acompanhasse, no caminho até meu apartamento fui puxando assunto, mas nada ressoava de volta de sua boca, apenas ficava cabisbaixa e ao mesmo tempo desconfiada.
Até que enfim chegamos ao prédio, aquele silêncio constante por parte dela estava me matando, passamos pelo porteiro que logo fez gracejos a moça de forma pejorativa devido à forma que ela estava vestida, ele vendo minha expressão facial de indignação no mesmo momento pediu desculpas e colocou-se a separar a correspondência. Subimos os dois lances de escada e mostrei-lhe meu apartamento, parecia curiosa, olhava tudo com atenção e tocava em tudo. Quebrou uma de minhas taças da cristaleira e no mesmo momento ficou ressabiada, eu disse que não tinha problema, dirigi-a ao banheiro e dei-lhe uma toalha nova para que se enxugasse, desculpei-me por não ter roupas femininas, entreguei-lhe uma camiseta e uma bermuda minha. Enquanto ela tomava banho fui limpar a bagunça que ela havia proporcionado em tão pouco tempo. – O que estava havendo comigo? Ela bagunçou meu apartamento logo que entrou e eu a ajudo como se nada tivesse ocorrido. Sair da cama logo cedo e tomar aquele sol escaldante me deve ter feito mal.
Ao sair do banheiro vejo que ela se encontra com o mesmo vestido, devolveu minha roupa e resolveu ir embora, estava limpa, mas o vestido causava impressão de ainda continuar suja. Não disse uma só palavra enquanto esteve ali. Acompanhei-a até a porta e de lá ela foi embora. Saiu com um leve sorriso entreaberto, eu entendi que essa foi a sua forma de agradecimento de dizer obrigado. Mas nada disse enquanto estivemos juntos.
Dirigi-me a varanda para vê-la atravessar a rua. Após alguns minutos eis que atravessa saltitando em meio aos pedestres a moça de vestido lilás com bolinhas brancas com bordado a desejar ser remendado, mas com um diferencial, a moça que o vestia se encontrava no momento limpa e pelos saltitares: de bem com a vida.
Dias se passaram, e eis que a encontrei novamente na rodoviária, para minha surpresa: estava sentada de frente a um piano de calda maravilhoso e tocava maravilhosamente uma melodia que eu não conhecia. Esfreguei os olhos para ver se realmente era a mesma moça, e para minha surpresa novamente, era a mesma moça. Tocava com graciosidade e as notas vinham de dentro de si, fiquei ali por alguns minutos e nem me dei conta da placa que se encontrava ao lado do piano, dei-me por conta quando chamaram no alto-falante os passageiros com destino a São Paulo, estava tão fixado nela e na melodia que tudo ao redor estava quieto para mim.
A placa dizia: CHAMO-ME HELENA, TENHO 24 ANOS E NECESSITO FAZER UMA OPERAÇÃO NAS CORDAS VOCAIS, MORO SOBRE O CÉU E DESCANSO OLHANDO AS ESTRELAS, DESDE MEUS 12 ANOS DE IDADE NÃO POSSO DIZER UMA SÓ PALAVRA SE QUER, ME EXPRESSO POR MEIO DO PIANO E SUAS MELODIAS, QUALQUER AJUDA É BEM-VINDA. QUE DEUS ABENÇOE! 
Abaixo da placa estava uma pequenina bolsa branca de renda, onde os interessados a ajudar deixavam o quanto desejavam contribuir. Confesso que fiquei sem fala naquele momento, a moça que tentei ajudar por meio de um banho, nada mais era que uma pessoa necessitando da ajuda de um bom samaritano. Sim, nesse exato momento um samaritano conseguiria suprir o que ela desejara desabafar, visto que eu não estava apto para encarar essa situação.
Foi quando me dei conta do que acontece nos dias atuais, sempre que vemos algum problema, fugimos ou fingimos não o ver para não ter que enfrentá-lo e naquele exato momento era o que eu estava disposto a fazer, fugir e esquecer aquela situação. Mas parei e pensei. Abri a carteira e tirei uma nota de cinquenta reais e coloquei dentro da pequena bolsinha. Ela mostrou-me um olhar de agradecimento. Continuei a ouvi-la tocar, algumas pessoas que por ali passavam se emocionavam e sempre que terminava era aplaudida por todos que rodeavam o piano da rodoviária.
Como minha faculdade era na cidade vizinha todos os dias nossos horários se coincidiam, eu estava indo pegar o ônibus e ela esperando que juntasse o suficiente para sua operação. Nem sempre tinha dinheiro, mas todos os dias fazia questão de parar e ouvi-la tocar, retribuíamos com olhares e sorrisos, ela me olhava e o piano era sua boca, ele dizia o que aquele pobre coração desejava sair gritando aos quatro cantos do mundo. Seus pés sempre estavam cheios de areia, então sabia que ela vinha da praia para a rodoviária para tocar e depois não sabia mais ao certo para onde se dirigia. Apenas pude desejar-lhe esperança e que nunca desistisse, pois Deus com certeza tinha algo grande para ela. Ela apenas sorriu.
Todos os dias eu deixava-a tocando e ia pegar meu ônibus, a música ficava na minha cabeça tocando sem parar. O piano era o ventríloquo. Ele era o encarregado de transmitir as emoções e desabafar o que há anos vem querendo ser dito. O piano era o que chamava desesperadamente a atenção dos que ali passavam para se voltarem para a moça e apreciá-la.
Desgrenhada, suja, malvestida, pés com areia e rosto sofrido, mas uma coisa eu posso dizer: a moça de vestido lilás com bolinhas brancas e bordado a desejar ser remendado, tinha a voz mais linda que eu já ouvi.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Do avesso

Vamos insultar quem não tem autoconfiança. Por que manter acesa a chama de esperança de alguém que não acredita em si próprio?
Vamos dar uma arma ao suicida. Por que privar de morrer quem não deseja estar entre nós desfrutando da vida?
Vamos empurrar a senhora que está andando na nossa frente vagarosamente. Por que ter paciência com alguém que está nos atrasando na correria do dia a dia?
Vamos? Vamos! 
Por que? Porque... (E faltam-lhe palavras).
"Meu Deus, já não basta eu perder tudo o que tenho, estar desolado aqui sem ter o que comer, por que ele ainda me insulta?" - Disse o pai de família aos prantos enquanto pedia o que comer, pois perdeu tudo o que tinha em um deslizamento de terra.
"Eu não vejo razões para sorrir, tudo está tão cinza, seria bom uma palavra amiga. Por que desistiram de mim e agora me oferecem uma arma e a morte como opção?" - Disse a jovem que está tentando superar uma depressão.
"O doutor me disse que logo eu ficaria boa, que essa operação no joelho seria logo cicatrizada. Por que eles sempre me apressam e quase me derrubam?" - Disse a senhora que trabalhou sua vida inteira de sol a sol na roça.
Vamos um dia acordar DO AVESSO, deixar o mundo ver nosso lado frágil, nosso ponto fraco, nossos dilemas, nossas decepções. A armadura do dia a dia nos torna frios, talvez menos solidários do que deveríamos ser. Talvez menos afetuosos do que deveríamos transparecer. Talvez, só menos humanos...

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Pobre escritor...


Pobre escritor, encontra-se preso em sua insônia e nas inúmeras xícaras de café que o fez pernoitar doravante que um novo texto escrito irá compreendê-lo e acalmar seu ansioso coração incompreensível. Não estou dizendo que escrever não traz paz a sua alma, nem tampouco que os desalinhos emocionais criados são esvaídos em cada parágrafo redigido minuciosamente entre tantos que já fez, porém, entretanto, todavia, vale ressaltar que escrever sem rumo é o mesmo que descer uma tirolesa com os olhos vendados, você sabe que a sensação será agradável, mas não irá curtir a visão que teria do percurso se estivesse atento e observando. Assim é o escritor que escreve sem rumo, sem desalinhos, sem emoções, só por obrigação e cobrança a si mesmo para sentir-se bem ao fim de cada texto e com a sensação falsa de dever cumprido, terá vários textos brilhantes escritos, mas não aproveitou, nem tampouco desabafou o que seu interior gritou incessantemente para ser ouvido.
Entretanto, não são os longos textos que moldam a característica do escritor em questão, a necessidade de escrever sempre foi o seu auge literário mais pleno, deixou-se hipnotizar pela literatura desde muito cedo, tornou-se o meu seriado predileto em que auto denominei de “licença-poética do meu pequeno escritor”, comecei a sondá-lo desde criança avaliando seu comportamento e interação, quase um reality show mirim sem câmeras e holofotes, apenas um palco imenso denominado vida e um intérprete protagonista de sua própria história que um dia se tornaria sua autobiografia, consequentemente mais tarde poderia também considerar seu script não lido de seu passado.
Caracterizar o que nunca nem ele próprio (escritor) caracterizou se torna uma das mais árduas tarefas, seus sentimentos nunca foram constantes, seu interior nunca esteve completo, posso descrever seus sentimentos como castelos de areia que se desmoronam facilmente, nunca haverá uma segurança por mais que se pareçam com um Forte de Copacabana ou uma grande muralha, sempre serão belos e ao mesmo tempo frágeis de se desmanchar com o tempo ou um simples toque. Acredito que ao decidir escrever e expor no papel toda aquela criatividade armazenada foi quando ele mais precisou de um outro escritor para compartilhar e trocar ideias, mas é orgulhoso demais para admitir que escrever não era uma tarefa fácil e tão divertida quanto imaginava, sorriu por cada texto que saiu como esperado, vibrou com cada parágrafo que o satisfez nem que fosse momentaneamente e chorou por cada parte sua que era despedaçada e impactada no papel para que agora as demais pessoas pudessem ler. Foi quando houve a necessidade de um pseudônimo, O Observador...
Não indo muito longe da linha de raciocínio, pobre escritor, estava cheio de sentimentos indescritíveis por dentro e impactando cada qual no papel, porém, houve algo que só se fez claro quando se deparou com várias partes de si expostas ao mundo, estava tudo exposto para quem quisesse ler e decifrá-lo, passou de alguém sorridente e criativo para os títulos e características que seus textos agora o deram: “sorri, mas não é feliz no amor”, “autocrítico demais, detalhista demais, perfeccionista demais”, “acredita que amanhã será um dia melhor”, “a perda deixa um vazio”, “se autoflagela por um último abraço que não deu”, “escreve auto ajuda, mas não se autodenomina nos padrões”. Era demais, quem quer ser lido dessa forma da noite para o dia? Então O Observador supriu esses medos e se auto intitulou de todas as incertezas que o escritor não pode carregar.
Estava sanada a incerteza de uma possível futura condenação, o pseudônimo assinaria todos os textos como um carimbo, seria a tinta negra que ficaria ali exposta para receber críticas, elogios e até deixar surgir dúvidas perante um pensamento inacabado do escritor. A incerteza de ter sentimentos incompletos faz com que tenha o intuito de querer conceitua-los para se ter certeza de que realmente eles habitam em si. Assim o fez. Pobre escritor, tão novo, na flor da puberdade e se deparando perante uma floresta imensa que teria que adentrar e decifrar cada canto para escrever seu próprio conceito de cada sentimento posto em seu pequeno coração gigante indecifrável. Como dizem: não são as respostas que movem o mundo, mas sim as perguntas! Lá estava ele decifrando cada canto de seu interior, tentando alavancar sua pesquisa sobre si próprio.
Vale ressaltar que o amor se fez o mais difícil de decifrar, várias noites em claro vivendo uma incógnita constante sobre a reciprocidade desse sentimento, quem escreve sobre amor se nunca o viveu? O escritor conceituou a ilusão, tristeza, negação, mas não o amor. Estava escrevendo todos os seus antônimos, mas o mais próximo que chegou de conceitua-lo era comparado a felicidade, mas não poderia dizer ao certo se ela seria uma das qualidades do amor ou se igualaria a paixão. Ele não queria conceitos prontos, não queria folhear uma revista adolescente e ler escancarado na primeira página a diferença entre amor e paixão, queria seu próprio conceito, sua própria verdade, queria conceituar cada sentimento na intensidade que vivia cada um, não queria generalizar como muitos fazem, queria algo seu, apenas seu.
Quando em um ato de rebeldia literária resolveu dar asas à imaginação e praticar a licença poética, escrever parágrafos imensos e sem fim, não pontuando com vírgula, fazendo seu leitor criar sua própria pausa ou se tornar um rapper caso não soubesse usar a pontuação. Seu intuito era de fazer seu leitor sentir uma pequena dose do que é o amor, o parágrafo imenso e sem pontuação significaria o amor, conforme vai lendo você vai desfrutando desse sentimento, os mais experientes sabem a hora certa de parar e criar sua própria vírgula, enquanto os menos experientes com a gramática iriam lendo sem pausas até quando aguentassem e acabassem com o fôlego, assim é uma das características do amor: a partir do momento que você aprende a colocar a vírgula, você não é sufocado. Simples, mas profundo.
Acredito que agora o leitor comece se familiarizar do porquê estive tanto tempo observando esse pequeno escritor e vendo se tornar um homem, passando pelas pequenas dúvidas e incertezas da vida, sendo o alicerce de seus sentimentos e buscando entender-se um pouco mais a cada dia. Não que os momentos ruins não estivessem presentes, pois eles ali estavam, quer incentivo melhor para querer entender-se do que perder o pai apenas aos 8 anos de idade? Quer um motivo para decifrar suas incertezas quando não se tem a mãe por perto? Quer um significado palpável da razão de escrever sendo que lhe foi tirado quando tinha apenas 15 anos a única pessoa que cuidou dele a vida toda? Talvez por trás de cada sorriso houvesse uma dor a ser escondida e com o tempo para não se ver sempre chorando houve a necessidade de fazer-se forte e sorrir.
Pobre escritor, pouco entendo de seus dilemas, apenas me ensinou a ser forte e ser aquele que suporta suas dores, ser aquele que é taxado de acordo com suas linhas, ser aquele que é visto de acordo com seu parágrafo, ser aquele que sempre irá assinar ao fim da página quando você quiser um ombro amigo e se esconder do mundo.
Pobre escritor...

De seu querido amigo,
O Observador.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Licença poética

Resultado de imagem para licença poética

"Apenas comunico a eles que sei escrever o que sinto, não o que mandam. Apenas resenho ao papel o que traduz, não o que traz incógnitas. Apenas escrevo por ter que escrever, não porque querem que eu escreva" - Christopher Duarte.

Acredito que hoje seja uma daquelas madrugadas que o sono se torna escasso e a imaginação transborda, não que as longas e frias madrugadas sejam feitas para criar ou até mesmo para hibernar não se preocupando com o vasto mundo que há lá fora. Um vasto mundo que nos espreita pelas vielas escuras ou pelo simples olhar que beira uma janela sob a luz de uma fúnebre iluminação que segue de um corredor de uma casa rústica, nada a declarar.
Não é o silêncio que traz a inspiração para as longas horas em claro sob um céu escuro sem ressoar, nem muito menos longos minutos sobre uma água quente que escorre o seu corpo durante o banho e faz-te pensar nas alternativas incessantes do que declarar ou por no papel como necessidade de esvaziar-se por dentro com eu lírico gritante, liberdade de expressão.
Os dias seriam vastos se nada houvesse para preenchê-los, assim como um livro sem palavras ou um rio sem água, mas a comparação se torna distante quando consideramos que um escritor escreve apenas quando precisa expor o que sua alma não suporta mais carregar dentro de si. Sendo um livro que teria palavras apenas quando não aguentasse mais ser folheado em vão e um rio que só minasse água quando se cansou de ver sua margem rachar-se ao sol escaldante do meio-dia, doce realidade.
Quando o respirar deixar de ser implícito por tornar-se cotidiano, quando o piscar deixar de ser metáfora para flertes, quando o bocejar deixar de ser argumento para desculpas, quando as palavras deixarem de ter conceito para possíveis contradições, será quando um escritor deixará de fazer sentido para os leitores e ao fim da página ressoará como nota de rodapé que tudo é nada mais e nada menos que licença poética.

sábado, 16 de abril de 2016

2.0 (Dois ponto zero)

"Não é que eu esteja me reinventando, a verdade é que eu nunca fui constante" - Christopher Duarte. 

É chegado na vida aquele momento que você descobre que não é tão jovem e ao mesmo tempo não é tão velho, que não é tão criança e ao mesmo tempo não é tão adulto, que não se encaixa como adolescente e nem muito menos como "quase adulto", que os questionamentos próprios quase nunca tiveram respostas e quando têm hão de surgir mais dúvidas constantes ao longo dessa trajetória que chamamos de vida.
Não que viver de constantes dúvidas seja algo ruim, acredito que as dúvidas surgem para dar um sentido a vida e que quando cessar todas as novas dúvidas e desalinhos emocionais sobrará apenas um ser humano convicto de tudo e sem o mínimo de compaixão para com o próximo, um robô futurista que se dirá humano e tentará reduzir simples sentimentos aos mais longos e esdrúxulos conceitos do Wikipédia.
Acredito que a vida sempre estará pronta para nos surpreender, seja com coisas boas ou momentos não tão agradáveis ao nosso ponto de vista, não digo que existam momentos ruins, tenho em mente que esses momentos são ensinamentos e grandes aprendizados que devemos passar para podermos entender lá na frente o quão necessário aquilo foi importante para nos tornarmos quem somos ou passarmos por determinada situação com certa maturidade. E não, não quero fazer-te acreditar que mensagens de auto ajuda possam reluzir seu dia, igual o humor estridente de todas as manhãs do personagem de desenho animado: Bob Esponja.
Porém, entretanto, todavia, ter pensamentos positivos não só iluminam seu dia como fazem você progredir consideravelmente como pessoa, lógico, mantendo como foco um ponto de vista realista. O que quero fazer você pensar com todo esse questionamento? Ao certo, não sei, mas eu sei apenas que eu não serei o mesmo que ontem e nem tampouco igual o de amanhã, não serei hoje uma criança e nem mesmo um adulto, não terei brincadeiras para desfrutar durante o dia todo e nem mesmo responsabilidades incessantes, apenas sei que nessa fase de transição eu desejarei ser apenas: EU, nem mais e nem menos, apenas: EU.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Momento: making off lírico.

"Nas madrugadas me sento para escrever, turbilhões de ideias aparecem durante o dia e como um rápido insight somem repentinamente, altas horas no relógio e um tic-tac incessante sem nenhum outro ruído a se manifestar se não o som do teclado ilhado do notebook. Não é poético, mas é real" - Christopher Duarte.

Pré-texto; Momento: making off lírico.
Ainda me coloco contra a parede quando necessito dar um tempo para mim mesmo, não que uma sessão de automutilação de perguntas sobre como estou agindo possa me regenerar interiormente e fazer rir após essa longa consulta com um psicólogo 'Eu lírico' próprio ou um pseudônimo intitulado como O Observador. Nem uma longa ladainha de frases de auto ajuda acompanhadas de provérbios motivacionais fariam com que o escritor pensativo/triste voltasse a seu estado/padrão de "normalidade" (se é que podemos aspar assim). Apenas tempo. Sim, o tempo cura tudo, acalma a alma, traz paz, faz brotar um sorriso em um rosto triste, faz uma noite brilhar ao sol do amanhecer. 
- E a auto-mutilação de perguntas? - Eu lírico.
- Qual? - Escritor.
Sim, definitivamente, o tempo cura tudo.

Texto; Momento: making off lírico.
- Qual a relação disso tudo? - Eu lírico.
- Pois bem... Nenhuma - Escritor.
Não é de hoje que escrever se tornou uma das minhas maiores paixões para se ocupar no tempo livre, mesmo passando madrugadas em claro digitando um conto, poema, crônica, pensamento e afins para terminar de ler e saber que está de alma limpa por ter novamente criado. Não é de longe que passa em minha mente a ideia de poder viver da escrita, poder criar, poder deixar para as pessoas algo palpável para poderem ler sempre que sentissem a necessidade de desvendar um pedaço da minha obra ou até mesmo de entender um pensamento lírico de um escritor.
- Por que não viver da escrita, por que não recorrer a mim sempre que necessitar a escrever? - Eu lírico.
- Pois é - Cabisbaixo (mesmo sabendo a resposta) - Mas acredito que tudo acontece ao seu tempo.
- E então? - Eu lírico.
- O quê? Não entendi - indagou o Escritor.
- Qual o texto de hoje? Qual o conto, poema, narração? - pensativo Eu lírico continuou: - Não iremos desbravar nenhuma ideia ou um oceano da imaginação juntos?
- Querido Eu lírico, hoje não, hoje não! - Abrindo um largo sorriso e pondo-se a caminhar em direção a porta.
- E então? - Novamente indagou o Eu lírico sem entender.
- Você já entendeu, só quer me fazer pensar e acredito que uma dose de realidade hoje não me caia mal.
- E a escrita? Ou até mesmo os pensamentos que precisam ser escritos, e.. e.. e.. - Gaguejando entre as palavras prosseguiu: - E eu?
- Querido Eu lírico, volto a dizer, hoje não! - Escritor começando a sair pela porta ouviu mais um lamento.
- E o que faremos? - disse Eu lírico em alto tom com expressão exausta.
- Qual a finalidade da escrita? Expor ao exterior o que o interior sente, impactar no papel uma lembrança, um sentimento, um som, algo necessário. - Deu de ombros e saiu.
- E por que não faremos isso? - disse o Eu lírico.
Voltando a porta e com uma das mãos no batente o Escritor suspirou fundo e finalizou:
- Hoje não escreverei. Hoje não quero escrever. Haverá ideias gritando para serem usadas, haverá utopias em mente querendo serem impactadas no papel, haverá contos surgindo igual novas nascentes, mas mesmo assim haverá os insights onde sumirão com a mesma sutileza que surgiram. Então, hoje não.
- Não entendi - fez-se de desentendido novamente o Eu lírico sentando em uma das cadeiras.
Escritor deu de ombros e saiu a dizer:
- Você pode não entender ou até mesmo fingir que não entendeu, mas é nítido que hoje não irei escrever. Não é poético, mas é real.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Um cachorro e um pássaro, eis o maior presente. (Conto)

"Não é comum" é totalmente diferente de "não é normal". Usar as palavras corretas quando direcionadas para as pessoas que te rodeiam fazem toda a diferença. O fato de não ser COMUM, não significa que não é NORMAL. - Christopher Duarte.

E logo surge descendo a rua aquela linda criança de olhos caramelados e cabelos castanhos, trazendo consigo novamente uma folha de sulfite em uma das mãos e na outra um giz de cera azul. Descia a rua saltitando e cantarolando uma das prováveis músicas que ouvira tocar em um desses celulares infantis que cantam incessantemente uma música gritante aos ouvidos dos adultos, mas que para as crianças nada mais é do que um doce convite para a diversão. A cada passo que dava a alegria em seu rosto aumentava cada vez mais, pois sabia que seria um dos raros momentos do dia que poderia ser livre para ser criança, poder brincar, poder sorrir, poder finalmente ser feliz em meio as singularidades que o mundo lhe propôs.
Se chamava Breno, aparentava ter seus oito anos de idade, mas quando perguntado não sabia ao certo a idade que tinha, roupa surrada pelo tempo e pelas várias vezes que havia a usado, sujas de poeira na barra da calça e rasgadas em algumas outras partes, como na perna e próximo dos bolsos. A camiseta branca que transformou-se em um bege escuro por conta da sujeira que provavelmente ali se acumulou. Os olhos brilhantes e o sorriso resplandecente diante de um rosto sofrido e maltratado pelo tempo e pelo árduo trabalho que realizava todas as manhãs. Andava descalço nesse sol escaldante das duas da tarde e quando perguntado se o sol machucava seus pés, apenas acenava que sim com a cabeça e dizia que quanto mais rápido corresse, menos sentiria o calor do asfalto. 
(Breve pausa para respirar fundo).
Andava todas as manhãs de casa em casa pedindo alimento, sozinho, descalço, se vendo obrigado pelas circunstâncias da vida a seguir sem reclamar, sem entender porque realmente estava ali. Mas nem sempre foi assim, antes caminhava ao lado de uma senhora que provavelmente viesse a ser sua avó, que o acompanhava nessa árdua trajetória matinal atrás de alimento, porém, após um tempo, somente Breno continuou nesse trabalho massacrante até mesmo para os olhos de quem observava ao longe o garoto se deslocar de portão em portão batendo palma ou saltando para alcançar as campainhas altas de cada casa. Soube depois que a senhora havia falecido, deixando apenas a responsabilidade à aquela pequena criança que mal poderia entender tais atrocidades que a vila lhe propôs.
Chamar o conselho tutelar? Sim, é uma alternativa, mas as pessoas não pensam que há seus pontos bons como ruins, envolver o conselho tutelar envolve a possibilidade da criança ser retirada da família, ser afastada de seus irmãos que se chegarem a ser adotados serão cada um deles encaminhados para um lugar diferente ou se derem sorte (o que é muito raro) serem adotadas juntamente. Entretanto, terão um lugar melhor para morar, não haverá mais situações como essas em seus dia a dia de pedir alimento durante o dia e que recebessem o verdadeiro carinho e amor que merecem. Mas a pergunta ainda é: pesando ambas os lados (bom e ruim/prós e contras), o que fazer?
(Breve pausa para pensar).
Não sabia o certo quem era sua família, ele mesmo evitava tocar no assunto, mas dizia ter um pai, este catador de latinha e reciclagem, uma mãe e mais um casal de irmãos menores, uma família tradicional, divergente apenas pelas dificuldades que passavam. Entretanto, vinha Breno todas as manhãs e as vezes após o horário de almoço, com um folha de sulfite que provavelmente deve ter achado  junto a reciclagem que seu pai recolhe pela cidade e com o seu único giz de cera azul para me pedir que desenhasse algo para ele ter o que colorir a noite quando terminasse de juntar os alimentos. Eu sempre desenhava um cachorro e as vezes um pássaro, nunca ouvi reclamações da minha pouca habilidade de desenhar, apenas um grande sorriso era estampado em seu rosto juntamente com aqueles olhos grandes e brilhantes que em sintonia com os risos faziam daquela a criança mais feliz do mundo. Dava-lhe algo para comer e ficava sentado junto ao portão vendo ele partir sorridente com o desenho em mãos.
Necessitava de roupas, chinelos, alimentos, mas acima de tudo necessitava de atenção, amor e uma infância que aos poucos era perdida gradativamente por não ter tido a mesma "sorte" ou no seu caso a "liberdade" de poder ser uma criança.
Na manhã seguinte, Breno não desceu a rua saltitando com uma folha de sulfite e seu giz de cera azul. Ele não bateu no portão das casas e nem ao menos saltou para apertar as campainhas altas. Não bateu palmas e nem chamou o dono da casa com sua voz doce de criança. Aguardei o horário pós-almoço e a mesma situação se perdurou. Peguei uma caneta permanente e desenhei sob meu telefone fixo um cachorro e um pássaro e a partir daquele momento eu soube: aquela ligação que fiz no dia anterior para o conselho tutelar foi o melhor presente que pude dar ao Breno.

O Observador.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Não quero escrever


Não quero escrever mais um clichê, escrever o que acham bonito ou o que traz inspiração para os dias longos e cansativos.
Não quero escrever minhas dores em forma de poema ou até mesmo uma crônica por um momento mal resolvido.
Não quero escrever sobre a felicidade almejada ou até mesmo pela loucura pensada no decorrer da semana. 
Não quero escrever "porquê", nem mesmo explicar gramática, erros, conjugações ou licença poética que me dei o luxo de usar.
Não quero escrever... Mas bem lá no fundo eu sei que entrei em contradição e escrevi!

sábado, 22 de agosto de 2015

Quem sou?


"Parar e pensar nas pessoas como um todo. Um todo sem fim e complicado. Complicado igual quebra-cabeças de mil peças, difíceis, porém não são impossíveis." - Christopher Duarte.

Em meio a milhares de olhares
Pessoas que vão e vem o tempo todo
Que conhecemos e amigáveis são
Que não conhecemos e se vão
Que iremos conhecer e aprender
Que nunca veremos vir
Ou até mesmo ir.

Poderá dizer que eu sou:
O que penso ver? O que penso ser?
O que realmente verei?
O que vi? O que não vi?
O que seria se tivesse visto?
Tantas perguntas e nenhuma resposta
Apenas não sei.

Sou alto? Magro? Baixo? Gordo?
Grande? Pequeno? Alguém?
- Não sei!
Branco? Azul? Amarelo? Negro?
Estranho? Normal? Mais um?
- Não sei!
"De tanto ser, deixei de ser".

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Os gatos que o digam...



"As vezes por medo ou dicotomia, você talvez pense sobre a situação. As vezes por desatino ou imprecisão, você talvez queira saber o porquê. As vezes por entrelinhas ou prosas, você talvez sussurre um EU TE AMO novamente. As vezes talvez você seja simplesmente assim:  as vezes talvez ou talvez as vezes" - Christopher Duarte. 

Escrever é desabafar. Sem sombra de dúvidas os escritores trazem consigo um dom de poder sentar de frente a uma folha de papel ou até mesmo diante de um notebook e redigir por longos minutos, horas ou até mesmo dias, o que estão sentindo dentro de si e que desejam compartilhar de forma objetiva ou as vezes subjetivamente com os que o rodeiam. Poderia eu hoje começar um conto e narrar como personagem principal, poderia eu redigir um poema sem gênero destinado a qualquer pessoa que se prestasse ao luxo de entregar como carta de dia dos namorados, poderia eu finalizar um texto passado que teve como desfecho um final não tão interessante. Mas ao invés disso resolvi despir-me das armaduras "eu líricas" que vestimos, das espadas literárias que usamos, dos escudos de pseudônimos que temos e do elmo de escritor que levamos conosco.
O sol brilha lá fora com todo seu fulgor estonteante, fazendo com quem se aventura por entre as ruas deseje incessantemente avistar uma sombra ou uma miragem de uma e perante ela se recostar. Não seria a toa que as pessoas desejem sair quando o mesmo se põe e leva consigo a chama viva daquele dia longo e cansativo que se encerra com sua ida flamejante no horizonte infinito. Nem mesmo pedir a tão esperada noite que traga-o de volta sem antes fazer-se perdurar belos pontos de luzes no céu, com temperatura a cair gradativamente e corpos a se unirem por entre vielas e avenidas que esvaziam-se fora do horário de pico. Para no dia seguinte avistar aquela luz de vida, de início, de priori que sobe gradativamente e vai fazendo sumir com maestria os vestígios de uma longa e perduradora noite com pontos brilhantes que se ofuscam com aquele fulgor imenso e dão lugares a novas formas de algodão macio ao céu.
Porém, a vida não para e a noite não é infinita, sobre muros esburacados, dentro de lata de lixos entreabertas, sob carros estacionados nas ruas, entre janelas de residências que espreitam o que ocorre e que se mexe do lado de fora, lá estão eles, curiosos, atentos, alertas e em vigia constante do que pode ser sua nova história. Ficam instintivamente vigilantes e demonstram tudo o que sentem com o olhar, aliás, que olhar belo e cheio de mistério, que desfrutam por entre os becos e vielas um novo mundo que vai do chão ao céu que não o impõe limites nem mesmo rédias para que deixem de procurar. São jornalistas com garras. Delegados com olhos misteriosos. Advogados ágeis. Estilistas em sua pelagem. Maquiadores em seus detalhes incontestáveis. Modelos em seu caminhar. Mas nada que o tirem o prazer e a alegria de observar a vida alheia, brincar entre escombros e se sujar com risco de levar uma provável bronca caso haja um possível chefe a esperar ansiosamente pela sua chegada ao amanhecer.
Talvez possa ter sido um desses "paparazzis" da madrugada a fora que tenha avistado onde foi que me enchi de amor e realmente errei em dar o primeiro passo resolvendo ouvir meu coração alguns anos atrás desejando que outro coração escutasse. Fazendo com que uma pequena omissão de meus sentimentos joviais apenas se dirigisse a você como minha primeira forma de coragem a ser esboçada com apenas 14 anos. Tolo, alto por genética, com espinhas fazendo meu rosto de batalha naval e aquela pele oleosa que reluz com o brilho da lâmpada incandescente... sério que eu me apresentaria assim? Infelizmente foi assim mesmo que me apresentei, naquele exato momento os curiosos de plantão com olhos de mistério que pudessem estar me avistando na varanda a fora daquele encontro para catequistas, deveriam estar escrevendo críticas e fazendo anotações bizarras que humanos quando amam literalmente ficam cegos, dando mais força a expressão cultural.
Acredito que pedir um simples MSN fez com que eu me tornasse realmente um escritor no ano que sucederia aquele, por conta de ser esnobado, ser respondido apenas quando viesse a convir, ser segunda opção e tantos outros adjetivos que poderíamos incluir pegando apenas um simples relatório de alguém que colocou esperanças em um amor que nunca desabrochou. Os anos se passaram e resolvi assumir a profissão que me circundava naquele e em qualquer momento que deixamos passar desapercebidos, a profissão que faz com que esses profissionais sejam tratados com certo desamor por serem seres que não podem ser domados, a profissão que faz a independência e a maestria deles não ser apenas superficial, a profissão de ser um observador.
Não vou me lamentar por anos passados, por frases não ditas, por sentimentos não expostos, por verdades não escritas, por poemas dedicados, por textos retratados, por um pedaço da vida sendo vivida com pensamento totalmente voltado a alguém que nem ao menos fez alguns poemas meus valerem a pena ou as madrugadas em claro escrevendo um livro sobre um sentimento reprimido. O passado não encheu nada mais do que os olhos desses pequeninos observadores de plantão que deitam majestosamente sobre o muro nos encarando sem qualquer receio. As suas sete vidas seriam totalmente gastam para nos observar e por meio de pequenos gestos tentar nos ensinar que seu amor tem que ser conquistado e não domado. Eis a maior lição que esses pequeninos de olhos grandes misteriosos, com longas e delicadas patas, com pelagem singular e maestria me ensinaram: o amor não pode ser domado, deve ser doado voluntariamente, se doado deve ser cativado.
Eis que hoje irei apenas continuar observando e esperando alguém que mereça esse amor voluntário, mas que acima de tudo saiba cativa-lo para que eu possa viver minhas sete vidas de observador em paz. 
Quem comprova isso? Quem espera ser amado voluntariamente? Por que não domar o amor? Quando observar? Não responderei. Os gatos que o digam...

terça-feira, 28 de julho de 2015

Amanhã não teremos ensaio! (CONTO).


Simplesmente não pude lhe dizer adeus. Triste, um tanto quanto lamentável de se pensar que a vida passa por nós em questões de segundos. No mesmo momento que temos tudo, podemos estar diante de um abismo: grande, alto, límpido e rochoso, onde apenas avistamos ao longe um vasto horizonte, com sol prestes a se pôr, pássaros que se vão em direção ao nada e desaparecem conforme se distanciam de nós. É tudo tão rápido e ao mesmo tempo inexplicável aos olhos de quem apenas assiste a essa apresentação que estamos encenando chamada: VIDA.
Os sentimentos embaraçosos aqui dentro do peito gritando de um lado para o outro pedindo para serem ouvidos e escutados por alguém que esteja do lado de fora do nosso ser, que possa ouvi-los gritar incessantemente por atenção, que possa ouvi-los chorar amargamente por um inoportuno feito errado sem pensar, que possa ouvi-los resmungar entre lágrimas de um provável desfecho de não esperado final feliz. Enfim, o abismo ainda continua aqui, límpido, vasto e longínquo o bastante para se avistar os pássaros que se foram por entre as nuvens.
Era tarde da noite, voltar para casa nessas condições perigosas que o próprio mundo se encontra nos dias atuais faz me pensar que o tempo evoluiu e o perigo pegou uma carona juntamente ganhando novas formas compassivas de exatidão e violência. Passos largos e rosto cabisbaixo a ponto de somente enxergar meus pés pisando firmemente e rápidos por entre as calçadas sujas e quebradas, que faziam cada cadeirante que por ali fosse confinado passar a lamentar incessantemente por manutenção. Acima de minha cabeça apenas um céu totalmente escuro e nublado, sem estrelas, sem lua e muito menos iluminação nos grandes postes que por ali se tinha. apenas uma longa avenida pela frente e nem sinal seres humanos indo ou vindo. 
Acovardar-se e ficar ali a noite inteira esperando que uma ligação trouxesse um conhecido, familiar, parente, não estava em meus planos, apenas gostaria de seguir meu fúnebre caminho que me coloquei e forcei a percorrer. Parar e vangloriar dentre as rochosas aberturas que havia na calçada enquanto estendia a mão em busca de carona não seria um fator que eu poderia pensar, nem muito ao menos colocar em mente como aceitável. Eu mesmo me coloquei naquelas condições e eu mesmo deveria assumir os riscos que propus a correr. Aliás, era fim de tarde e me coloquei a caminhar pela cidade sem rumo para pensar na vida. Escureceu, como já era previsto e cá estou eu pensando em como preservar a vida que eu saí para pensar.
E o inesperável aconteceu, por entre becos que bifurcam a avenida saiu uma sombra de quase 1,90 de altura, blusa moletom preta e touca da própria blusa sobre a cabeça deixando apenas que sua silhueta vagasse pela longa avenida vazia e sem almas, com exceção de minha pessoa vagando por ali o mais rápido que podia atrás de alguém que pudesse me acompanhar ou pelo menos dizer que ali não seria perigoso a essa hora da noite, por mais que no fundo eu pudesse saber que seria uma grande mentira encoberta de consolo para me acalmar. Resolvi acompanhar a sombra de 1,90.
O tempo não passava e a avenida não finalizava, mal podia se enxergar o seu fim ou visualizar algum comércio ou ponto de vendas por ali. A sombra tinha passos largos e compassivos, andava com grande rapidez, digamos que apenas fez com que minha ansiedade e medo acelerassem meus passos para andar com mais agilidade em direção a minha casa. Sair para pensar na vida e simplesmente não voltar? Não era o que eu tinha em mente. Na verdade não tinha nada em mente, queria apenas avistar a minha casa, entrar direto para o meu quarto e agora pensar lá dentro. Mas não podemos ensaiar a vida.
E infelizmente estar na hora errada e no lugar errado faz com que tudo venha a se desmoronar. Chorar não adianta em meio a tantos conflitos interiores que poderiam estar acontecendo naquele momento. Ver o céu escuro, compassivo, visto verticalmente enquanto ali no chão estava. Som de sirene ao fundo, paramédicos a volta, tudo indo e vindo, "insights" da vida real e da esperada oportunidade de chegar em casa e lá poder pensar. Por que saí para pensar? Por que saí para ver o que não vi  no conforto do lar? Por que? Por que? Tantas perguntas e nenhuma resposta além de um balão de oxigênio e um pouco de hiperventilação própria. Um pouco de sangue nos paramédicos. Aliás, muito sangue nos paramédicos. Só consegui avistar o que se encontrava na vertical e aquele lindo e fúnebre céu escuro. Até que tudo escureceu...
Poderia ser eu o culpado de deixar minha família triste, aos prantos, sem consolo, amigos desamparados, parentes com dúvidas, meus pensamentos em vão, minhas ideias se soltarem pelo céu escuro e fúnebre, meus dizeres ensanguentados, meus gestos imobilizados, memórias acabadas. Não há quem culpar. Não há dor, não mais. Não há desalinho intelectual. Não há feridas, se há, não avisto-as mais, apenas o que está na longa vertical. Não há mais nada. Vamos cantar, rir, dançar, abraçar-se, lacrimejar, amanhã não teremos ensaio nesse grande palco da vida. Não teremos refletores e holofotes direcionados para a alma que canta, grita, fala e sorri para o mundo. Não teremos mais obstáculos para passar nem muito menos sonhos a alcançar, apenas avistar o que está na vertical.
Simplesmente não pude lhe dizer adeus ao grande abismo que ficou entre mim e aquele grande céu, nublado, fúnebre, escuro, sem estrelas, sem lua e sem luz. Simplesmente não pude dizer adeus aos familiares, aos amigos, parentes, conhecidos, pensamentos, ideias, sonhos, realizações. Simplesmente não pude dizer adeus a mim mesmo, nem ao menos dizer adeus ao que eu considerava ser eu ou que pudesse vir um dia a ser eu. 
"Viva. Grite. Pule. Interprete. Fale. Chore. Corra. Caia. Sorria. Contagie. Case. Vote. Seja. Ouça. Olhe. Escute. Veja. Cante. Morda. Ande. Diga. Pense. Conte. Leia. Viva!!! Porque amanhã só veremos um céu fúnebre e tudo o que estiver na vertical, desde que não esteja escuro como está..."

O Observador.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Majestosa forma de sofrer "literaturamente"

"Um pouco de 'eu lírico', um pouco de pseudônimo, um pouco de mim, um pouco de escritor, um pouco do que tenho a oferecer nessa noite de inverno gélida... Apenas!" - Christopher Duarte.

As noites se tornaram mais longas
As lágrimas mais incessantes
Os sentimentos mais indecifráveis
A dor no peito menos tênue
O brilho no olhar menos visível
Versos felizes menos aparentes
Melodia melancólica enquanto pensa
Lábios ressecados enquanto sussurra
Mãos gélidas enquanto escreve.

Um pouco de ternura em cada digitar
Pensamento vasto e escasso
Um poema por obrigação eu lírica 
Versos confusos e difusos
Mas com sentido para o escritor
Aliás, pobre escritor tênue a amar
Vossa inspiração lírica similar a dó
Lágrimas pensantes de incerteza e pena
Majestosa forma de sofrer "literaturamente".

Não que a dissociação de amor seja plena
Ou até mesmo que sofra aurora da dor
Porém, ser amado, ser escutado
Ser ouvido, ser indagado, ser lido
Não é o que tem tido ou sonhado
Não que as veredas da alma sangrem
Mas a esperança de ter tudo o que sonhou
Ter de volta amor, atenção, ouvidos
Perguntas, carinho, afeto mútuo.

Nem que o pseudônimo ressurja
Que se torne seu refúgio ou moradia
Nem que a música não pare de tocar
Que se torne seu porto seguro a velejar 
Enquanto se sentir só, em todos os sentidos
Ainda assim poderá ouvir os ecos internos:
- Bem me quer, mal me quer, bem me quer...
Um pouco de esperança líquida, ops, não há
Um pouco de reciprocidade, ops, também não há.

Não que seja digno de interesse e atenção
Nem mesmo de reciprocidade e afeto mútuo
Mas assim como a ocasião faz o ladrão
A ocasião faz a necessidade de ver
Poder entender o porquê de amar poder doer
Entender todos os viés que passa
Fazer cada manhã soar "Tudo bem"
Cada amanhecer dizer "Dormi bem"
E chorar por não ter escrito ao fim do dia.

- Por que escrever o que você não lerá?
Eu estou desistindo aos poucos de mim
As páginas fúnebres que escrevi estão sobrepostas
Um pouco de mim espalhado pela sala
Um pouco de mim doado a você
Um pouco de mim perdido em mim mesmo
Talvez eu seja novo com isso e interprete mal
Talvez eu seja apenas alguém só
Talvez eu apenas... ame!


O Observador.